Tem filme que chega devagar, mas quando você menos espera, já está cutucando aquela parte sensível que a gente nem lembrava que existia. Mais Que Amigos (Bros, no original), disponível no Prime Video, é exatamente assim. Vem com a promessa de uma comédia romântica LGBTQIAP+, mas entrega muito mais: ironia, carinho, representatividade e uma bela desconstrução de tudo aquilo que a gente acha que entende sobre amor e afeto.
A história gira em torno de Bobby (Billy Eichner), um cara afeminado, sarcástico e extremamente consciente das dinâmicas dentro da comunidade queer. Do outro lado, temos Aaron (Luke Macfarlane), o clássico gay “padrão” — daqueles que mal se envolvem com o meio, têm o corpo definido e dificuldade em lidar com as próprias emoções. Um é o oposto do outro, o que já renderia boas cenas, mas o filme vai além do mero “os opostos se atraem”.
O que Mais Que Amigos faz de forma deliciosa é brincar com os clichês das comédias românticas enquanto os escancara. O personagem de Eichner não perdoa: fala dos relacionamentos abertos, da cultura do corpo perfeito, da invisibilização de pessoas fora do padrão — tudo com um humor ácido, porém necessário. A relação entre Bobby e Aaron vai se construindo entre encontros desajeitados, diálogos cheios de farpas e uma tensão que só cresce.
E é aí que o filme ganha a gente. Porque apesar do tom leve, ele trata de coisas sérias. Fala da dificuldade de ser vulnerável, de como os padrões nos afastam do outro, mesmo dentro da própria comunidade. E, principalmente, do medo que muita gente tem de simplesmente ser vista — com todos os exageros, medos e falhas.
Um detalhe que merece ser aplaudido: todo o elenco principal é LGBTQIAP+. Inclusive aqueles que interpretam personagens héteros. Parece óbvio, mas ainda é raro em Hollywood — e o resultado aparece na tela, com atuações autênticas e um clima de identificação sincera.
Mais Que Amigos teve ótima recepção da crítica (88% no Rotten Tomatoes), mas não deslanchou tanto nas bilheterias. Talvez por não ter conseguido furar totalmente a bolha LGBTQIAP+. Mas isso não diminui seu valor. Pelo contrário. É um daqueles filmes que a gente recomenda com carinho, principalmente para quem já cansou das fórmulas de sempre — ou quer rir (e talvez chorar um pouquinho) com uma história que é, acima de tudo, humana.
Se você procura um filme para assistir de coração aberto, Mais Que Amigos é uma ótima pedida. E talvez você se veja ali, entre as falas afiadas do Bobby ou na resistência emocional do Aaron. Porque no fim, todo mundo está tentando amar do jeito que dá.

