Público LGBT+ pode e deve ocupar cargos importantes: “vamos mudar o mundo nos espaços de decisões”, diz Fábio Félix.

Nesta semana, o Agora em Brasília conversou com o deputado distrital Fábio Félix (PSOL). Em um bate-papo exclusivo, a nossa equipe obteve informações sobre novos projetos, desafios legislativos enfrentados pela comunidade LGBT+, homofobia na CLDF e muito mais. Confira abaixo a entrevista:

1- Me fale sobre o seu lugar de fala no âmbito profissional

“Eu costumo dizer que os assuntos da comunidade LGBT+ não são pautas que eu posso escolher defendê-las ou não, porque elas estão encarnadas na minha vida. Eu vivenciei todas as experiências e violências do processo de saída do armário de uma sociedade que não percebeu os nossos direitos. Esse comprometimento é inerente à minha trajetória política.

Mas eu preciso dizer que além de trabalhar muitas outras pautas, essa é sempre uma pauta central na defesa política que eu faço. Então, a vivência pessoal foi fundamental. Essa discriminação e todo esse processo de vivência é muito importante para conseguir elaborar políticas públicas, pensar soluções e tentar organizar o segmento LGBT+ para que a gente possa enfrentar cotidianamente essas dificuldades”.

2- Deputado, quais pautas são prioritárias em sua gestão?

“Infelizmente, a sociedade tenta limitar o público LGBT+ somente as pautas da comunidade, mas nós também temos outros assuntos. A verdade é que usamos a saúde pública, ensino público, a gente paga boleto, anda pela cidade, busca por emprego, luta para se formar, enfim. Nós estamos inseridos dentro de todas as contradições sociais. Então, eu gosto sempre de afirmar que, por mais que eu seja LGBT, e que essa seja uma pauta importante, sempre prioritária, outras pautas da cidade também são.

Eu lido com a defesa dos setores públicos, a fiscalização permanente na saúde, a defesa dos direitos humanos, a promoção de uma lógica pedagógica da inclusão dentro das escolas, a discussão a respeito dos direitos humanos na segurança pública, a defesa dos direitos de crianças e adolescentes e por aí vai. Todas essas pautas são prioritárias para nós”.

3- Qual é a importância da inclusão do banheiro feminino para mulheres trans?

“A pauta do banheiro para as pessoas trans é uma discussão de inclusão. É onde elas se sentem respeitadas e não sofrem violência. Você querer obrigar uma mulher trans a usar o banheiro masculino é uma violência sem tamanho. É o mesmo que expor ela à vulnerabilidade, porque no banheiro masculino ela pode ser atacada. Então, o que eu acho que é extremamente verídico, é que extremistas religiosos às vezes fazem o banheiro masculino porque eles criam fatores de pânico moral na questão da identidade gênera. Contudo, eles não trazem fatos e nem exemplos. É simplesmente para colocar a população contra as pessoas trans. Essa questão do banheiro é assunto da sociedade.

São os extremistas que não aceitam a diversidade. As pessoas, em geral, respeitam bastante. Agora, algumas pessoas tratam a diversidade na escola como um assunto polêmico, mas a pauta precisa ser natural, porque a gente já sofreu homofobia. Eu também já sofri homofobia e violência na escola. Sei a importância da escola ser um espaço de respeito. Quando eu debato sobre educação, é para isso. É para que a escola seja um espaço confortável para todos”.

4 – Como você acha que a sua atuação no política ajuda na evolução do público LGBT+?

“Fico feliz em ter esse espaço hoje e construir uma referência de ocupação da política. Por muito tempo, Infelizmente, foi negado ao público LGBT+ a ocupação de espaços importantes . Hoje a gente consegue voltar e ocupar a política, de fato, e exercer um trabalho fora do armário. Precisamos ter orgulho da nossa orientação sexual e da nossa identidade de gênero. Então, isso é um êxito enorme. Eu espero que essa experiência, essa vitória e essa conquista que é estar nesse espaço possa ser uma abertura de porta para que muita gente ocupe a política. Na verdade eu espero que ocupem o espaço que quiserem na educação, na saúde e por aí vai. Somente sentados nos espaços de decisão que a gente vai conseguir mudar o mundo”.

5- Quais são as suas principais pautas de atuação no DF?

“Desde que chegamos aqui, o nosso trabalho sempre apoiou o movimento LGBT+ da cidade. Então, nós conseguimos aprovar o reconhecimento de pessoas trans no Brasil. Eu acho que são avanços que a gente tem. O direito a retificação é gratuito.

Na semana passada nós realizamos um seminário que eu acho que foi histórico, porque ele entra em um tema delicado, mas mostra pontos de violência vivenciados pelo público LGBT+ na educação. É importante debater a diversidade na escola. Então, a gente conseguiu realizar um seminário muito grande com a participação de estudantes e educadores para a ‘Cartilha Escolar de todas as Cores’, que traz uma discussão da diversidade, da aceitação e com respeito ao âmbito escolar”.

6- Como você lida com a homofobia no ambiente profissional?

“Às vezes pensamos em homofobia como um soco na cara. Vale ressaltar que o Brasil é um dos países que mais possui violência contra o publico LGBT+ no mundo. Só que também é importante dizer que nem sempre a violência é um soco na cara.
Então, eu gosto de dizer que eu sinto a homofobia nas entrelinhas todos os dias. Dentro da institucionalidade.

Ela nem sempre vem de forma escrachada e falada. Você sente ela no burburinho, no corredor, na maneira como um projeto tramita ou não tramita. Então, a homofobia está presente no processo o tempo inteiro. Eu acho que desde o momento de saída do armário, a gente é meio que treinado, socialmente, a lidar com isso e a responder. É violento, é sempre violento, mas aprendemos a lidar com isso no trabalho e na vida. Nós temos as nossas ferramentas e os nossos mecanismos de defesa. Aprendemos a lidar com esses processos. Eu acho que esse aprendizado anterior foi importante para que eu aprendesse a lidar com essa dificuldade.

Obviamente que também tem gente que, apesar de não apoiar minhas posições aqui, não combate a população LGBT+. São pessoas generosas e respeitosas. Existem muitas dessas pessoas nesses espaços. Acontece um equilíbrio. E é com essas pessoas que a gente vai se aproximando. Vai gerando empatia e contando a nossa história”.

7- Como tem buscado colaborar com organizações da sociedade civil e outras instâncias do governo para fortalecer ações em prol da comunidade LGBT+?

“Temos sempre na frente parlamentar a defesa dos direitos da população LGBT+. No dia 25 deste mês, a nossa equipe vai realizar um café da manhã com a sociedade civil e com o movimento de defesa da cidade. Vai ser um momento muito importante para organizar a nossa agenda anual.

A sociedade civil LGBT está sempre aqui no gabinete e nos eventos que a gente tem feito na cidade. Para nós é uma prioridade essa relação. E seguimos apoiado também os projetos que a sociedade civil faz por meio das frentes parlamentares. São recursos que a gente consegue designar para fortalecer essas parcerias”.

8- Qual projeto você idealiza para BSB?

“O tenho o sonho de conhecer o projeto ‘Transcidadania’ em São Paulo. Ele foi implementado na gestão do prefeito Haddad e se tornou muito interessante e forte perante a população trans, com espaços de acolhimento, repúblicas, inclusão no mercado de trabalho e cursos profissionalizantes com uma bolsa anual. Isso é uma possibilidade de construir um caminho de oportunidade e formação para essas pessoas que estavam em situação de vulnerabilidade. É um projeto que eu quero trazer para Brasília”.

 

Jornalista (Vinícius Lopes) e deputado distrital (Fábio Felix)

 

 

Por Agora em Brasília 

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