Existe algo de muito especial em séries que não tentam ser maiores do que a própria vida. Looking, da HBO, é exatamente isso: uma série sobre existir. Sobre estar vivo, amar, errar, tentar de novo e, principalmente, sobre se encontrar.
A trama acompanha um grupo de amigos gays vivendo em San Francisco — e sim, é uma série sobre pessoas LGBTQIA+, mas é, acima de tudo, sobre ser humano. Eles estão ali tentando entender seus próprios caminhos, suas relações, seus desejos, seus medos. E não há nada de extraordinário nisso — e, ao mesmo tempo, há tudo.
A gente conhece Patrick, Agustín, Dom, Richie, Kevin, Lynn… e, rapidamente, eles param de ser só personagens e viram quase nossos conhecidos. Uns estão na casa dos 30, outros já passaram dos 40. Uns estão buscando um grande amor, outros estão tentando entender se esse tal de amor precisa mesmo estar nos moldes que sempre disseram que deveria ser. Uns sonham com carreiras brilhantes, outros só querem não se sentir tão perdidos.
E é sobre isso que Looking fala. Sobre a confusão que é crescer, amadurecer, se aceitar, entender que a vida não vem com manual, que as relações não são perfeitas, que o amor nem sempre é fácil, que o trabalho dos sonhos às vezes não é tão dos sonhos assim — e que, no meio de tudo isso, o mais importante talvez seja ter com quem compartilhar o caminho.
Não espere grandes plot twists, vilões, nem cenas mirabolantes. A beleza da série está exatamente no cotidiano. Nos cafés da manhã meio silenciosos, nas caminhadas pela cidade, nas conversas desconfortáveis, nos encontros que começam estranhos e terminam em carinho, e até nos silêncios que dizem mais do que mil palavras.
Ela é feita de olhares, de abraços que demoram mais um segundo, de desencontros, de reencontros, de saudades que não sabem bem do que são. E se você já se sentiu meio perdido na vida — e, sejamos sinceros, quem nunca? —, essa série vai bater em algum lugar aí dentro.
Looking teve duas temporadas e um filme que encerra a história com muito carinho. Foi cancelada, é verdade, mas não porque era ruim — longe disso. Foi uma série à frente do seu tempo, que escolheu contar histórias sem se apoiar no drama excessivo, e talvez por isso não tenha sido compreendida por todo mundo.
Mas quem se permitiu (ou se permite agora) mergulhar nela, descobre uma obra sensível, honesta, com uma fotografia linda, diálogos deliciosamente naturais e personagens que parecem existir de verdade, em algum lugar por aí, vivendo suas vidas, do jeitinho que dá.
No fim das contas, Looking não tenta te impressionar. Ela só quer te lembrar de que viver já é, por si só, extraordinário.

